22 janeiro 2013

O causo da bicicleta

Quando eu tinha uns 9 anos, a TV Anhanguera exibia um programa aos domingos de manhã que eu adorava: Frutos da Terra. Era um programa regional que apresentava cantores e personalidades de Goiás.

Foi nesse programa que eu conheci o Geraldinho. Hoje ele é conhecido no Brasil inteiro e a internet ajudou a esparramar os causos dele por aí (se você nunca ouviu falar, pode parar um bocadinho e espiar aqui!). Mas naquela época o caboclo que contava histórias na TV era só o Geraldinho, um matuto genuíno que parecia ter saído ali da cozinha da nossa fazenda.

Aí mês passado fomos para Pirenópolis, pertinho de Goiânia. A cidade é linda e suas ruas de pedra (as primeiras ruas do Estado de Goiás) são cheias de história. Quando viu isso o André, meu marido, resolveu que queria conhecer Piri de bicicleta. Não seria um problema, exceto por um detalhe: eu não ando de bicicleta.

Nesta mesma época em que o Geraldinho e eu proseávamos pela televisão, eu peguei uma bicicleta (escondido) emprestada e só descobri que a bendita não tinha freio numa baita descida. Só parei quando um fusca cruzou meu caminho. Um pouco pelo castigo, outro pouco pelo tombo e os ralados que ficaram dele, nunca mais subi numa bicicleta.

Quem contava outra história de bicicleta era Geraldinho – um causo que prá mim é impagável! Narrando a sua primeira vez em cima de uma “magrela”, ele garantia que “não sabia administrá o rumo que precisava... No rumo que a bicicleta embalasse era esse mesmo”.

Sabe aquela história de “é igual andar de bicicleta... ninguém esquece”? Pois é... Conto do vigário! Eu tentei. E caí, claro. Mas já estou aceitando a idéia que o problema não é a bicicleta (rsrs). Por conta do medo eu fico de olho no caminho e esqueço que de recuperar o equilíbrio. Faço que nem o Geraldinho: o rumo que a bicicleta toma eu vou junto! =P

Não é muito diferente do que a gente faz o resto do tempo, né? Conheço caboclo por aí que se preocupa demais com o que vem daqui a pouco e esquece que precisa respirar fundo e manter o equilíbrio é “agora”. É bem verdade que às vezes não evita o tombo, mas dá mais coragem prá levantar e começar tudo de novo. Mais que isso... Quando a gente “se equilibra”, descobre que fica mais fácil administrar o caminho decidir o rumo que vai tomar...

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Prá ouvir o causo da bicicleta do Geraldinho é só clicar no vídeo aí embaixo. Vale pela história e pela simplicidade de um caboclo que deixou saudade!

08 janeiro 2013

Fui ali casar. Mas já voltei!


Feliz 2013 procês! Eu sei que tá atrasado... Mas é de coração! 

Faz um tempo que eu não apareço por aqui e depois da nossa última prosa o tempo passou ligeiro! Já rolou um terremoto na Argentina, descobriram a partícula de Deus, o Corinthians foi campeão da Libertadores e teve gente por aí jurando que o mundo ia acabar – mas Corinthians não teve nada com isso... =P

Aí já começou outro ano, o mundo não acabou e eu nem vi direito tudo isso acontecer. Deixei o computador um pouco de lado nos últimos seis meses por conta de um casamento – o meu! “A festança no sertão”, como diriam Tonico e Tinoco.

O casório aconteceu lá em Rio Preto, no meio do mato, do jeito que a gente queria. Mas foi uma piscada e pronto! A festa já tinha acabado, a música não estava mais tocando e o povo todo tinha ido embora.

E aí veio 2013, um outro capítulo para começar e um companheiro para viver novos causos comigo. Com ele veio a novidade: outra mudança de cidade. Eu amo São Paulo. Nós dois aprendemos a gostar dessa cidade. Mas resolvemos voltar para o interior para começar nossa família.

Um dia desses, pouquinho antes do casório, uma amiga querida me disse que prá ter certeza em qualquer decisão, basta estar com o coração leve. E aí eu tô aqui escrevendo e lembrei a viola do Enúbio Queiroz ponteando enquanto meu pai e eu seguíamos para o altar. Lembrei do sorriso do André me esperando, do olhar cúmplice da minha mãe, do carinho dos meus irmãos, de todos os abraços que me envolveram nas últimas semanas... Vou te contar uma coisa: foi a decisão mais leve de toda minha vida!

E é assim, de coração e alma leves que eu tô voltando – para o interior e para as prosas aqui do Viola! Pode ir chegando... Já que o mundo não acabou, vamos esticar a conversa, uai! =)



"...e a alma leve, leve, leve... São folhas e flores ao vento!" Renato Teixeira

Minha mãe... sempre ela
A viola de Enúbio Queiroz
A bênção do Rubão
De coração e alma leves...

16 junho 2012

Fuxiqueiro

Agora todo mundo conta pro Facebook onde foi, o que comeu, o que usou, quando foi dormir, se escovou o dente ou se espirrou. 

Tem hora que esse fuxico todo me irrita. E eu acho mesmo é que o Machado de Assis estava certo (e parece até que ele ia adivinhando a internet): “não há alegria pública que valha uma boa alegria particular”.

Apesar de me faltar um bocadinho de paciência com o Facebook, tenho que admitir que ele me apresentou um punhado de gente nova. É que o ponteado da viola também faz barulho na tal da “timeline” e aí vai juntando cada vez mais caipira!

Mas o que eu ia contanto é que por conta do Facebook outro dia eu fiquei sabendo do Suíte Cabocla, um projeto de música instrumental para viola caipira. Fui atrás prá assuntar mais do tal projeto e acabei conhecendo o Renato Gagliardi.

Imagine só que o Renato juntou Villa-Lobos, Beethoven, Bach e mais um punhado de grandes compositores da música erudita, com a simplicidade e delicadeza da nossa violinha caipira. Eu achei genial! É como Tonico e Tinoco já cantaram:

A viola na sua simplicidade
sem gaguejá conversou c'a murtidão
no teatro da mais arta sociedade
e mostrando a beleza do sertão

Se quiser espiar um pouco do trabalho do Renato é só clicar no play do vídeo aí embaixo. Agora se quiser ajudar o Suíte Cabocla ganhar mais palcos, visite o blog do projeto: www.suitecabocla.blogspot.com.br. E se gostar, pode contar prá todo mundo – inclusive no Facebook. Por que vez ou outra a gente acha algumas coisas que valem “mesmo” passar prá frente e fazer um fuxico pro vizinho... =)


14 junho 2012

Modéstia parte

Meu pai é apaixonado pelo João Pacífico. E eu acabei herdando a paixão.

Aí, coisa de uns dois meses atrás, descobri uma peça de teatro que contava a história do poeta. E lá fui eu atrás das poesias deste caipira que saiu da roça aos sete anos de idade. Em 1924, em plena revolução, João chegava a São Paulo, aos 15 anos. Só voltou para o interior em 1995, já no fim da vida.

Mesmo depois de passar 71 anos morando na cidade grande, João Pacífico soube como ninguém falar da roça que o acompanhou até os últimos dias. E colocava em seus versos o cheiro, o mato, os riachos e serras que ele pouco viveu, mas que conhecia tão bem...

Resolvi contar esta história porque outro dia meu pai saiu com essa: “você não é mais caipira não... Já adotou a cidade grande!”. Eu quis responder na hora, mas deixei prá lá. Mas aí, no último final de semana, lá vem ele de novo: “tem jeito não... não é mais caipira”. Moço... Fiquei mordida!

Como meu pai é o leitor mais assíduo do Viola, achei melhor dar a resposta por aqui... rsrs E pensando na resposta, lembrei do Guimarães Rosa, que dizia: “o sertão é dentro da gente”.

É mais ou menos isso mesmo: o sertão vive em mim. E me faz reconhecer outros caipiras perdidos aqui no meio de tanto asfalto, buzina e gente sem tempo que vive correndo. Então, prá encerrar essa prosa, vou deixar outro poeta, o Adauto do Santos, falar por mim. Na voz da querida Inezita Barroso, ele escreveu tudo o que eu gostaria de dizer!

“Eu sou cabocla tô chegando lá da roça
Inda falo vige nossa, eu ainda digo é
Sou sertaneja, não me nego e faço gosto
Tá escrito no meu rosto, só não enxerga quem não quer

Eu sou aquele cheiro doce lá da mata
Água limpa da cascata, o verde dos cafezais
Modéstia parte sou o som daquela viola
Que um caboclo consola quando o acorde se faz

Eu sou do mato, sou caipira verdadeira
Sou perfume de madeira, esse é o jeito meu
Eu sou a fera que esconde o filhotinho
Ave que não sai do ninho, protegendo o que é seu

Eu sou aquilo que inda chamam de beleza
Sou um fato, sou certeza, tudo isso e muito mais
Nasci da terra, sou a flor da natureza
Eu sou vida, sou pureza, amor que não se desfaz”


Então é isso, Rubão: “modéstia parte, sou o som daquela viola”. Ou, como diriam Jacó e Jacozinho, “eu sou caipira... Mas quem não é?”.

Te amo, meu pai! Um beijo da sua caipira (de sempre!)

*****

Prá embalar a prosa, "Caipira de Fato", gravada em 1997 por Inezita Barroso e Roberto Corrêa.

18 maio 2012

Pé vermelho




Eu não tinha carro na época da faculdade. E algumas vezes achava que demorava mais esperar pelo ônibus então, andava um bocado a pé! Eu brincava que era da “turma do pé vermelho”. E gostava da caminhada porque a pé, eu sempre encontrava (e parava para espiar!) lugares que de carro, provavelmente não prestaria atenção. Mas isso já faz muito tempo...

Aí outro dia fui para Rio Preto. Sábado cedo, cheia de coisa para resolver, meu carro enguiçou. E quando o mecânico adiantou que eu ficaria o final de semana todo a pé, moço... Eu confesso que fiquei bem brava. Saí de lá remoendo o que ia ficar para depois e já ia ligar para um táxi quando ouvi, na esquina, o ponteado de uma violinha. E ali, naquele boteco escondido em uma das ruas históricas da Boa Vista, tinha um violeiro me dando “bom dia”.

Entrei no boteco, tomei uma Cotuba, ouvi o resto da moda e fui embora para casa – a pé. A caminhada durou mais de uma hora. E apesar do calor (de sempre) de Rio Preto, ficar com o “pé vermelho” naquela manhã valeu a semana inteira! Depois desse dia aprendi a deixar o carro na garagem de vez em quando. É bem verdade que eu já não tenho o mesmo “pique” da época da faculdade. Mas a cidade continua a mesma: cheia de surpresas em cada esquina para quem tem paciência para andar por aí procurando...



Publicado no jornal Boa Vista Parque em fevereiro de 2012

12 março 2012

Loteria

Há alguns anos trabalhei com uma amiga na produção de uma reportagem sobre realização de sonhos. O pano de fundo da matéria era apresentar um produto que facilitava a compra da tão sonhada casa própria. Eu tinha acabado de pegar meu diploma de jornalismo (que hoje já nem vale muita coisa rs) e estava pronta para falar de sonhos - eu mesma estava com a bolsa cheia deles. Aí, durante duas semanas inteiras conversei com gente de todo o tipo. A matéria ficou pronta, foi capa, todo mundo gostou e no final do mês estouramos nas vendas do tal produto. Depois dessa, vieram outras capas. Mas essa eu guardo com carinho. 

Um dos personagens da matéria era dono de uma lotérica. Fui para entrevista sem esperar muita coisa. Já imaginava que o cara ia falar de sorte e de como tudo é lindo quando você sonha e acredita nos seus sonhos, blá, blá, blá... Fiquei uns 20 minutos esperando ele chegar. Quando finalmente chegou ele foi curto e grosso: "não precisa nem gravar o que eu vou te falar porque se você for esperta, vai usar isso pelo resto da sua vida, menina. Você quer escrever sobre sonhos? Então, escreve aí: as coisas não acontecem para quem sonha. Mas para quem parte para a ação!".

A entrevista foi isso. Só isso. E eu lembrei dela porque, apesar de na época ter ficado morrendo de raiva por ter perdido tempo em ir entrevistar o tal dono da lotérica, hoje acho esse cara brilhante! 

Ando com preguiça de gente inerte, que posterga decisões, que passa os dias no casulo numa "clamura" danada, resmungando e esperando a vida acontecer. Seja qual for seu projeto de vida (e não interessa se ele é prá agorinha mesmo ou prá daqui 10 anos), faça alguma coisa para que isso aconteça! E se você não tem nenhum, por favor, arrume um urgente! Porque sem um ideal a vida fica muito sem graça.

Lá em Mato Grosso do Sul tive uma professora da escolinha dominical fantástica, a Dona Jussara. Ela dizia o seguinte: "o que você sente, quem você ama, o que você sonha... Isso tudo só diz respeito a você. É o que você "faz" para mostrar tudo isso que faz diferença". Resumindo: falar, até papagaio fala. Agora "fazer"... Como é difícil! Você pode até continuar tentando a sorte na loteria. Mas até para isso, vai ter sair do lugar e agir um bocadinho, viu?

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Já citei essa música em tantos textos que eu acho que já ficou batida. Mas não tem jeito, é isso mesmo: "um dia a gente chega, um outro vai embora". E como não dá para saber quando isso vai acontecer, se eu fosse você não perdia muito tempo falando não. Tire a bunda da cadeira, moço! Porque "cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz!”. Já que a música é repetida, vai aí uma versão diferente (e linda!)...

31 janeiro 2012

Atalho

Depois de morar 12 anos no mesmo lugar, a gente aprende todos os atalhos que precisa. Um atalho na rua para escapar dos faróis e chegar cinco minutos mais cedo. Outro atalho no trabalho para pegar o primeiro café da garrafa. Tem o atalho que passa em frente a única sorveteria com sorvete de banana na cidade. E aquele atalho que a gente não conta prá ninguém, mas que permite roubar um beijo no meio dia. =)

Aí, há mais ou menos uns dois anos, assisti a um show do Mococa e Paraíso no SESC de Rio Preto. Sentei na primeira fila, ao lado do Seo Zé do Cedro, e fiquei só esperando para ouvir “Doce de Cidra”, a minha preferida. Lá pelas tantas do show, o Seo Zé me cutucou: “presta atenção nessa”. E o vozeirão do Mococa lá no palco cantou:

Hoje no atalho de meu peito abandonado
O meu destino a pisar folhas caídas
Cruza a floresta do outro lado de meu tempo
Prá ver os anos carregando minha vida

Agora espia isso: na manhã do dia 31 de dezembro, na correria de comprar "mais aquele negócio que a gente esqueceu”, meu pai resolveu pegar um atalho para voltar para casa. No meio do caminho, pegou outro atalho para falar um “oi” para o Seo Carlos, um amigo muito querido.

Foi um “oi ligeiro” porque a livraria do Seo Carlos estava cheia dos clientes que lotam o lugar todo sábado de manhã para ouvir música. E eu já estava quase na porta quando o Seo Carlos perguntou: “menina, você sabe qual é o melhor atalho para evitar uma briga?”. Ele esperou para ver se eu ia responder – mas eu nem me atrevi... E aí ele respondeu logo: “é não brigar, uai! Porque “desbrigar” dá um muito trabalho! A gente acha fácil, fácil as palavras para brigar. Mas para “desbrigar”, não tem palavra que conserte o coração”.

Há sete meses mudei de cidade e de atalhos. E hoje, voltando para casa, arrisquei um atalho novo para encurtar o caminho. Não deu outra: tive que voltar e fazer o caminho antigo (rs). Cheguei em casa (mais tarde do que o previsto) pensando no Atalho da dupla Mococa e Paraíso e botei a moda para tocar baixinho...

Até que um dia o vendaval dos desenganos
Em pedacinhos fez a minha mocidade
Desesperado hoje eu grito e não encontro
O meu atalho na floresta da saudade

Não existe atalho para a saudade. Não dá para voltar e fazer o caminho de novo. E como o Pena Branca (sempre sábio) dizia: “a vida não se mede, mas se aprende no viver”. Então aprenda aí o atalho do seu Carlos: desbrigar dá muito trabalho. Na dúvida, economize um bocadinho as palavras. A raiva passa... Mas tem um bocado de pessoas que permanece sempre por perto, ajudando a gente a achar alguns atalhos mais fáceis prá vida...

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PS: Coisa boa a gente passa frente: se qualquer sábado desses você estiver em Campo Grande, não deixe de passar na Arte & Técnica, na rua Dom Aquino. Garantia de boa música (sempre!) e de brinde, o sorriso sempre gentil do Seo Carlos!


Mococa e Paraíso. Faltou só o Seo Carlos na foto! =)

30 janeiro 2012

História fresca

Tive um professor na faculdade que dizia que uma boa história pode ser "enlatada" ou "fresca". Qual fosse a opção, o importante era que fosse bem contada e honesta. Aí, ainda na faculdade, eu tentei fazer algumas "histórias enlatadas" - escrever, deixar na gaveta e ir usando conforme a necessidade. Moço... Não saía nada!

Até hoje, (meu amigo Betinho que o diga...), vira e mexe eu me apuro para cumprir o prazo. Perco algumas horas acordada da madrugada escrevendo, ajustando as palavras, tomando um bocado de café e ouvindo alguma coisa na vitrola enquanto tento esticar o tempo e o texto. É sempre mais corrido. Mas não consigo escrever se não for assim, com a história “fresca” saindo da cabeça para o papel. =)

Os últimos dias de 2011 e os primeiros de 2012 vieram carregados de novidades e da tradicional correria desse período. Por conta disso, dei uma sumida aqui do Viola. Causo prá contar tem de monte! O que não anda sobrando é fôlego para colocar tudo no papel... Então esse post é só prá dizer que apesar de não ter nada “na gaveta”, voltei cheia de causos fresquinhos para contar!

Vamos combinar seguinte: vou ali colocar a água prá ferver, passar um café e ir preparando a trilha sonora para as próximas madrugadas. Quem quiser, busque aí um biscoito de polvilho ou de goma para me acompanhar e esticar a prosa por aqui. Vá chegando e apure os ouvidos porque o ano promete um ponteado bonito aqui nessa viola, viu?

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Enquanto o café não fica pronto e para começar a semana (e o ano, com um mês de atraso...), aumente aí o volume para ouvir a Mônica Salmaso, uma paulista de quem eu já era fã e que agora, ganhou meus ouvidos e coração de vez! Prá ficar um bocadinho melhor, neste vídeo ela canta acompanhada do violeiro Paulo Freire. “Vai ouvindo...”


♫♪ ...a tua saudade corta feito aço de navaia
O coração fica aflito bate uma, a outra faia
Os óio se enche d'água... Até a vista se atrapaia, ai, ai, ai ♫♪

23 novembro 2011

Em outras palavras

Durante muitos anos, embaixo de uma pilha de pastas, papéis, canetas nanquim e réguas de desenho, ficava escondido um dicionário de capa preta que meu pai usava. E ele usava bastante porque “às vezes as palavras que a gente acha que conhece nos surpreendem.

Eu acreditava nele. Por isso, enquanto meu pai desenhava e ouvia música, eu ficava por ali, sapeando... De vez em quando pegava o tal dicionário só prá dar uma espiada. E quando achava uma palavra engraçada ou bonita, anotava num caderno (que eu tenho até hoje) e tentava enfiar a bendita palavra de todo jeito nas redações da escola. Era divertido.

Lembrei disso ontem depois que uma amiga me indicou o Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento, da Adriana Falcão. O livro é lindo e tem pequenas poesias como essa:

"Gente: carne, osso, alma e sentimento. Tudo isso ao mesmo tempo."

Aprendi um bocado de palavras diferentes no velho dicionário do Rubão. E aprendi também que às vezes, mesmo juntando um dicionário inteirinho, a gente não consegue explicar algumas coisas.

Aí eu tentei fazer igual ao Tião do Carro, “com palavras tão bonitas, caprichei bem na escrita”. Mas mesmo assim a explicação não saiu. Acho que é porque tem alguns tipos de felicidade que não tem palavra que explique. Tem ausência, que às vezes é tão grande, que só a palavra saudade parece ser pouca prá explicar. E vez ou outra aparece gente (de carne, osso, alma e sentimento) que nos deixa completamente sem palavras.
É este tipo de gente que faz o dia valer a pena! =)


13 outubro 2011

O Circo Montreal



De um lado fica a Serra da Mombuca. Do outro, a Serra da Pimenta. No meio das duas, Itarumã. E bem no meio de Itarumã, durante um mês inteirinho, ficou o Circo Montreal. 
 
Era um circo pequeno, mas para a molecada da rua que tinha pouco mais de um metro de altura, aquela lona colorida era o máximo! O terreno onde o circo foi armado ficava bem em frente à minha casa. E eu vi o mesmo espetáculo tantas vezes que já sabia de cor a hora que o sujeito das facas ia errar, jogar a faca para trás e arrancar um "óóóóó" do respeitável público. E mesmo sabendo o que ia acontecer, a gente corria para a matinê contando as moedas para comprar algodão doce e pipoca. E todas às vezes eu prendia a respiração, torcendo para o atirador de facas não machucar a mocinha.
 
Aí semana passada lá fui eu para o circo de novo. Desta vez um circo grande, com um nome esquisito. Moço... Foi tanta cor, som e movimento acontecendo ao mesmo tempo, que a gente só lembrou que aquilo tudo era faz de conta quando os artistas voltaram para o picadeiro - sem máscaras - para agradecer os aplausos. Foi realmente muito bonito e para a gente, que ficou ali espiando tudo de boca aberta, parecia até fácil voar de um lado para o outro.

O Tonico e Tinoco, que apresentaram-se em circos de todo o Brasil, cantaram um dia:

"Quando estou no drama que a platéia chora
Eles ignora que tudo é ilusão
O meu próprio drama eu nunca revelo
Sinto a dor no peito bater em duelo 
No cenário triste do meu coração"

Voar, a gente não voa não! Mas é bem verdade que vez ou outra o caboclo disfarça o que está sentindo para fazer bonito e conseguir um aplauso. E aí faz contorcionismo para dar conta do dia, dribla o leão, faz mágica para as contas fecharem e inventa uma piada mesmo sem achar lá muita graça. 

Vou contar uma coisa prá você: até hoje eu torço para o atirador de facas não machucar a  mocinha. E eu sei que no final vai dar tudo certo. Mas até ele acertar o alvo... Só mesmo prendendo a respiração. E aí, enquanto isso, de um lado fica o que a gente sente. Do outro o que a gente mostra. E bem no meio fica o coração, apertado que só...

12 outubro 2011

Do melhor jeito manera

"To tocando essa vidinha
Do melhor jeito manera
To sem pressa de matar
Essa vida passageira
Toda calma que eu puder
Vou gastar devagarinho
Quando vou pra um lugar
Dou cem voltas no caminho

(...)

Diz que a vida não se mede
Mas se aprende no viver
Não me atalho a paciência
To sem pressa de morrer
Seu cuitela numa estrada
Dou cem voltas no pomar
E só deixo a minha casa
Na certeza de voltar"



Pena Branca e Xavantinho


04 outubro 2011

Pingado com pão




Eu já tinha perdido a hora, o ônibus e estava quase perdendo a paciência quando começou a chover. Aí eu lembrei que tinha perdido também o café da manhã. Já que eu ia ter que esperar a chuva diminuir mesmo, entrei na primeira padoca que apareceu e pedi um pingado com pão na chapa. Era um gole e uma espiada na chuva. Um mordida no pão e uma olhada no relógio. "Tá atrasada, menina? Todo mundo vive atrasado, né?". Era a tia do café. Eu ia engolir e responder, mas não deu tempo. Ela já tinha ido servir outra pessoa.
A tia do café tinha razão. Espia só: um mês inteirinho passou e eu não consegui esticar a prosa aqui. Tá sobrando coisa prá contar, e por isso mesmo, faltando tempo prá escrever. Em setembro eu deixei tanta coisa "na espera" que é melhor nem lembrar. Aí tinha prometido que outubro ia ser diferente. Mas hoje já é dia 4 e eu comecei o mês de novo na correria, olhando para o relógio a cada cinco minutos.
Mas eu ia contando da chuva que não passava... Eu ainda estava na padaria matutando sobre tudo o que “não” ia dar tempo para fazer quando a tia do café voltou. Achei que devia retribuir o comentário dela: "Às vezes eu queria ter só uns cinco minutos a mais prá fazer uma ou outra coisa com calma, sabia?". Ela concordou com a cabeça, colocou "um dedo de café" num copo, bebeu e soltou essa: "Se você sabe quanto vale cinco minutos no seu dia, vai saber por que o seu coração bate, querida.” Falou e pronto, foi lavar os copos sujos de café que estavam na pia.
Uns 15 minutos depois a chuva ficou mais rala e uma hora depois eu consegui chegar ao trabalho. Ruminei o dia inteirinho aquela prosa com a tia do café. E aí eu me dei conta que não foi a chuva que me atrasou. Foram os "cinco minutos" que fizeram meu coração me levar na noite anterior até o outro lado da cidade. "Vai saber por que o seu coração bate..." Não é que a tia do café acertou?
Ia pensando nisso agora quando lembrei de uma moda do Renato Teixeira: "então vamos que o tempo tá passando e o melhor nessa vida é ir andando". A gente nunca sabe o que pode acontecer no dia de amanhã. E não adianta fazer planos porque basta chover no dia seguinte para mudar tudo. Mas se você consegue fazer valer (mesmo!) a pena pelo menos cinco minutos do seu dia (ou da sua vida inteira), a chuva, o ônibus atrasado, a pilha de coisas para terminar até o final do dia... Tudo isso fica mais fácil - ou menos difícil. É como diz o Teixeira: "uma vida inteirinha não é nada prá que gosta dessa jornada".


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PS: Se passar pela rua Peixoto Gomide, em Sampa, pare prá tomar um pingado e trocar dois dedo de prosa com a tia do café da padaria Nóbrega. Mesmo se não estiver chovendo, vale a pena! =)

31 agosto 2011

Vai doer. Mas é rapidinho!

Aí um dia, tentando fazer uma armadilha para um tatu no fundo do paiol, enfiei um estrepe enorme embaixo da unha. O filho do peão que estava montando a arapuca comigo me olhou com uma cara de “você não vai chorar por causa disso né?”. E aí eu não chorei.

Mas o danado do estrepe latejava. E ficou ali, incomodando um bom tempo. Eu não tinha coragem de mostrar para minha mãe por que ficava pensando na dor para tirar a farpa de madeira. Não importa o quanto algo nos machuca. Às vezes, mesmo com dor, se livrar do que está machucando dói mais ainda...

Dois dias depois, num segundo que eu descuidei da mão, minha mãe viu que meu dedo estava parecendo uma mangaba. Tentei explicar que eu estava esperando o estrepe sair sozinho, mas não teve jeito. Em menos de 10 minutos ela já estava sentada, segurando minha mão de um lado e uma agulha do outro. Aí eu chorei. Muito. Moço... como doeu! E eu ainda estava chorando quando ela disse: “pronto, já tirei. Se tivesse tirado antes, não tinha doído tanto!”.

Tem gente que faz coleção de estrepes embaixo da unha. Um mais dolorido que o outro. E vai deixando ali, esperando prá ver se o bendito sai sozinho. Eu mesma, até hoje, finjo que não estou com vontade de chorar. E ainda escondo um ou outro estrepe embaixo da unha na esperança que ele pare de doer sozinho. Acredite: não pára. E pode apostar, vai doer para tirar. E eu estou sendo honesta porque minha mãe nunca mentia prá gente – quando ia doer ela avisava. Mas também lembrava: “vai doer agora, mas é rapidinho! Depois passa e você pode ir brincar”. Tá, nem sempre é rapidinho. Mas a dor passa mesmo, juro! Eu acho... =)
  

Ainda em tempo: não pegamos o tatu.



29 agosto 2011

Presta atenção

O Gonçalo partiu fora do combinado há alguns meses. E até agora eu não tinha falado disso porque não sabia o que falar. Perder um amigo é algo que “dói a ponto de não dar para respirar”. Aí há alguns dias eu conheci a Dona Jussara, mãe do Gonçalo. E foi ela que encontrou palavras para o que eu achava que não tinha explicação:

 “Às vezes dói a ponto de não dar para respirar. Mas é assim que a gente sobrevive. Você começa de novo todo dia. E de novo. E outra vez no dia seguinte. E sempre, todas às vezes, o mesmo sentimento te deixa sem ar. É uma porteira que reparte o coração entre a saudade e a vontade de continuar vivendo”.

Conversar com a Dona Jussara abriu algumas porteiras no meu coração... Da mesma forma que há quatro anos, no meio de outro redemoinho, o filho dela abriu uma porteira enorme e deixou passar tanto carinho e tanta paciência, que hoje eu faria de tudo para ter só um bocadinho dele aqui perto da gente. E aí eu passei as duas últimas semanas matutando o último pedacinho da minha conversa com a Dona Jussara:

"a vida não é curta do jeito que o povo fala, viu menina? A vida é longa... mas ela é rápida. E passa! Presta atenção porque daqui a pouco não dá mais prá voltar e fazer de novo."

Bom seria aprender isso de um jeito mais fácil. Mas como o Gonçalo mesmo vivia perguntando: "por que é que você insiste em fazer tudo do jeito mais difícil?". Vai saber... “Mas é assim que a gente sobrevive. Você começa de novo todo dia.”

......

"A porteira é a fronteira que meu coração reparte
(...) Vou rezar só pra que o vento nunca vire tempestade
(...) Não vou lutar contra o que me faz feliz
Eu sou assim mesmo... Meu coração está do lado de lá da porteira"







25 agosto 2011

Saudade


A saudade é uma estrada longa
Que começa e não tem mais fim
Suas léguas dão volta ao mundo
Mas não voltam por onde vim
A saudade é um estrada longa
Que começa e não tem mais fim
Cada dia tem mais distâncias
Afastando você de mim
Tantas foram as vezes
Que nos enganamos
Outras vezes nos desencontramos
Sem nem perceber
Mesmo sem razão eu quero lhe dizer
Sem intenção
Ver tudo se perder
Dói tanto, tanto
A saudade é uma estrada longa
Nem é boa e nem é ruim
Vou seguindo sempre adiante
Nunca volto,
Eu sou mesmo assim
A saudade é uma estrada longa
Que hoje passa dentro de mim
Me armei só de esperanças
Mas usei balas de festim

16 agosto 2011

Não faça contas


Durante o mês de julho eu rodei 3.720 quilômetros e fiquei 56 horas dentro do ônibus. Agosto não vai ser diferente. E acho que setembro também não. Nesta toada, se não mudar a rotina, até dezembro terei rodado 22.320 quilômetros em 336 horas.

Quando terminei de fazer esta conta eu achei que tinha errado alguma coisa. Aí pedi para um caboclo mais entendido do riscado assuntar se eu tinha feito o cálculo certo. Tinha. E quando ele entendeu a conta ficou me olhando de rabicho de olho um tempo, resolvendo se perguntava ou não. Aí perguntou: “vale mesmo a pena rodar 930 quilômetros todo final de semana?”.

Antes de continuar este causo, me deixa explicar: nos últimos meses eu tenho me dividido em duas casas: a “casa que eu preciso” e a “casa onde mora meu coração”. De segunda a sexta eu fico na casa que eu preciso. Mas no final de semana, mal termina a sexta-feira, eu corro para a “casa do coração”.

Aí na semana passada, enquanto eu fuçava na internet para ver se o tempo passava mais ligeiro, recebi um e-mail de um caboclo lá de Minas: o Chico. Garrei numa prosa boa com esse mineiro e aí, conversa vai, conversa vem, o Chico mandou essa: “a fibra ótica é boa mas perde muito ainda para o velho calor humano”. A prosa era sobre amizade, carinho, saudade e todas estas coisas que a gente só entende “mesmo” quando fica longe. E foi pensando no que o Chico falou que eu respondi a pergunta do meu amigo entendido em números: “vale... vale muito à pena”.

E aí, prá terminar a prosa, botei prá tocar uma moda do Alvarenga e Ranchinho:

“Ó que saudade que eu tenho
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão
(...)
A casa menor da terra

Para algumas coisas na vida não adianta fazer conta, nem medir a distância, contar o tempo... A gente ama e ponto. 

21 julho 2011

Arroz com abacaxi


Arroz branco com abacaxi. Mesmo com o pessoal da mesa olhando meio torto para o prato, eu comi o tal abacaxi “com vontade” mesmo – é um dos pratos que eu mais gosto. “Mais caipira impossível...”, alguém brincou na ponta da mesa. E eu fiquei tão preocupada com todo mundo achando aquilo esquisito, que peguei outra fatia e coloquei no prato. =P
 
No dia seguinte, em cima da minha mesa, achei uma pasta com a foto de um abacaxi e um bilhetinho: “este abacaxi é para você”. Era mesmo um baita abacaxi... Levei a semana inteira prá “descascar” o bendito. Aí me lembrei da Dona Maria Beluzzo falando: “não... não pega esse não porque ainda não tá maduro! Vai querer comer abacaxi azedo?”. Minha avó plantava abacaxi na fazenda onde morávamos. A plantação ficava bem próxima da sede e de vez em “sempre” a gente passava correndo ali perto e ganhava um arranhão novo nos espinhos daquele mundaréu de abacaxis.

Eu nunca aprendi qual era o segredo para saber qual abacaxi estava maduro. E tinha um talento especial para escolher os mais azedos, era impressionante. Mas desta vez... Moço, não é que eu acertei? Deixei o “abacaxi” maturando e todo dia eu dava uma espiada nele. Levou uma semana inteirinha (e um ou outro arranhão), mas não é que deu certo? No final das contas o tal abacaxi ficou docinho, docinho...

Devolvi a pasta com o “abacaxi” e outro bilhetinho: “Só mesmo uma caipira prá fazer esse abacaxi ficar doce! Esse povo da cidade grande tem muita pressa. Mas não se preocupe: agora eu tô aqui!”. Coincidência ou não, na hora do almoço tinha abacaxi no cardápio de novo. E quando eu cheguei à mesa, espia só prá isso: todo mundo comendo arroz branco com abacaxi. =)

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Ainda em tempo, aqui vai uma dica da Dona Maria: prá escolher seu abacaxi, fique de olho nas folhas da coroa – se estiverem se soltando com facilidade, isso significa que o abacaxi está no ponto. Espero que você tenha mais sorte que eu na hora de escolher...

19 julho 2011

Um bocadinho do Chico...

"Se eu não mato a saudade, é "deixa estar"
Saudade mata a gente, saudade mata a gente, menina..."

Chico Buarque


27 junho 2011

Para aqueles que ganharam meu coração

 


Por conta do trabalho, eu passei muitas horas em aeroportos nos últimos meses. Muito mais do que eu gostaria, na verdade. Então, para não pensar no que eu poderia estar fazendo enquanto ficava ali – sem fazer nada –, eu me distraia observando as pessoas chegando e saindo nas salas de espera. Parece entediante, eu sei. Mas eu me divertia imaginando uma história diferente para cada uma delas. Cheguei até a escrever algumas. E foi assim, inventando histórias para desconhecidos, que eu conheci o Álvaro. Ele trabalha há quase 20 anos como motorista de uma empresa em São Paulo e, todos os dias, está em Guarulhos segurando uma plaquinha com o nome de alguém que ele nunca viu na vida. Um sujeito incrível, o Álvaro!

Nos falamos uma única vez. Enquanto nós dois esperávamos, dividimos uma mesa, um café e algumas histórias. E ele me disse uma coisa que eu achei o máximo – todo dia ele se arruma e fica na expectativa de conhecer alguém diferente. Há dias bons e dias ruins. Mas todos os dias existe alguém novo esperando encontrá-lo no aeroporto. “Essa pessoa pode fazer parte da minha vida só alguns minutos, enquanto está no meu carro. Ou pode ficar no meu coração o resto da vida... a gente nunca sabe, né? Então eu me preparo todo dia! Porque a qualquer momento eu posso conhecer alguém que pode ganhar meu coração”. Eu não sei se eu ganhei o coração do Álvaro. Mas ele certamente ganhou o meu. 

Se você botar reparo, vai perceber que só nos falta a plaquinha com o nome... Porque todos os dias conhecemos alguém novo, alguém que pode ganhar o nosso coração para sempre. E na maior parte do tempo, a gente não encara isso com a mesma alegria e expectativa do Álvaro. E aí eu resolvi contar esta história hoje (prestes a ficar longe de um bocado de gente eu amo), porque só agora me dei conta da quantidade de pessoas que ganhou meu coração nos últimos 12 anos. Gente que todo dia ocupa um pedacinho da minha vida e que vai fazer uma falta danada...


Tem uma música do Milton Nascimento que diz: e assim, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem. Para não ficar matutando sobre o que estou deixando prá trás, fiz um trato comigo: ao invés de pensar na tristeza da partida, vou fazer como o Álvaro e viver a expectativa da chegada. Mesmo sem "plaquinha na mão", comecei a me preparar para conhecer aqueles que a qualquer momento podem ganhar meu coração em outro lugar. Mas vou já morrendo de saudades. Sabendo que o que "conta mesmo" é saber que tem alguém ali na sala de espera com os braços abertos, cheios de saudade esperando por você. E isso ganha o coração da gente por inteiro...


12 junho 2011

Poeminha Amoroso

No início do ano, durante uma viagem, carreguei comigo um livro da Cora Coralina. Um dos poemas dela, um tal "Poeminha Amoroso", ficou guardado durante meses dentro da minha agenda esperando a hora de sair. Não saiu. Mas como Vinícius e Toquinho disseram certa vez que "mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão" cá estamos, Cora e eu, fechando o bendito Dia dos Namorados com o poeminha que quase ficou esquecido. 

Nunca fui boa com declarações de amor. Gaguejo, fico sem graça e (veja você!), perco as palavras. Ainda bem que sempre há um poeta prá traduzir o que a gente sente. E neste caso, devo dizer, a simplicidade e doçura da caipira Cora Coralina, fizeram toda a diferença... 

Assim, "talvez tu possas entender".


"Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu... 
É uma oferenda aos teus momentos 
de luta e de brisa e de céu... 
E eu,  quero te servir a poesia
numa concha azul do mar  
ou numa cesta de flores do campo.  
Talvez tu possas entender o meu amor.  
Mas se isso não acontecer,  
não importa.  
Já está declarado e estampado  
nas linhas e entrelinhas  
deste pequeno poema,  
o verso;  
o tão famoso e inesperado verso 
que  te deixará pasmo, surpreso, perplexo...  
eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."

Na foto, os avós do fotógrafo americano Scott Schuman. A foto foi feita na França no início da década de 50, meses antes deles se casarem e ficarem juntos por mais de 40 anos

09 junho 2011

Redemoinho

"O redemoinho é para desacomodar as coisas, arranjando o desarranjado, e desarranjando o arranjado". José Oswaldo Guimarães*

Vai ver é isso: um redemoinho passou por aqui e eu nem vi. Porque pelo que eu lembro os redemoinhos são assim mesmo: rápidos e ligeiros.

Ainda criança, a gente vivia correndo atrás daqueles redemoinhos que se formavam no meio do terreiro da fazenda. Os peões diziam que era saci fazendo festa. Mas prá gente nem interessava o que era. A criançada queria era alcançar e entrar bem no meio do tal redemoinho que rodava, rodava e de repente sumia, tão rápido quanto tinha aparecido.

Agora, depois de grande, tenho a impressão que eu finalmente consegui entrar dentro do bendito redemoinho. E moço... que bagunça esse danado faz! Outro dia mesmo passou um por aqui levantando poeira e as folhas que já estavam assentadas. Fez sujeira, bagunçou o que já era certo e sumiu. Não deu tempo nem de ver pra que lado!

Depois daquela ventania toda eu juntei as folhas novamente, tirei daqui, coloquei dali. Sei não... mas parece que continua tudo fora do lugar. Mas pelo rumo do vento, acho vem outro redemoinho por ai. Então agora é esperar. Quem sabe no próximo "o desarranjado volte a se arranjar?" =)


*José Oswaldo Guimarães é Presidente da Associação Nacional dos Criadores de Saci

02 junho 2011

Ruminando

Tem um punhado de músicas que eu só fui entender depois de grande. Era engraçado porque por um bom tempo eu criava as minhas próprias versões. De vez em quando eu inventava umas duas (ou dez) palavras novas para substituir as originais que eu não entendia. Aí sim... na “minha versão” eu entendia tudo, era uma beleza! Na maior parte do tempo eu sabia que estava cantando errado. E mesmo depois que alguém me corrigia, se na “minha versão” a música tivesse ficado mais bonita (prá mim, claro!), eu acabava optando por ela. Ainda faço isso até hoje. Só não conto (nem canto) prá ninguém. =)

Foi assim que eu arrumei uma “ração estragada” para a música do Boldrin...


Ri sozinha lembrando isso hoje. Voltando de uma apresentação do Ricardo Vignini e do Zé Helder, coloquei o som baixinho e “Vide, vida marvada” foi a primeira música que tocou. Engraçado porque a palavra mais difícil na música era justamente a que eu melhor entendia: “ruminando”.


Para o caboclo, isso é coisa de bicho. "Ruminar" é tornar a mastigar, remoer os alimentos que voltam do estômago para a boca. Nojento, né? Eu também achava quando era criança. Mas espia só prá isso: depois de grande descobri que não era só boi e vaca que ruminavam. "Gente" também perde um bocado de tempo remoendo, remascando, remastigando e matutando as ideias. A coisa vai e volta... e a gente nem sempre consegue engolir o assunto e pronto.

Hoje mesmo, enquanto eu ouvia o Boldrin, eu ruminei um par de horas sobre uma história que podia até virar uma moda de viola, de tão comprida. Tem um pedaço desta moda que precisa de uma versão nova, igual as que eu fazia quando era criança. Mas moço... não sai de jeito nenhum! 

Na música do Boldrin, “diz que ruminando dá pra ser feliz”. Então tá, vou ali ruminar mais um bocadinho e depois eu conto procês como é que ficou essa moda...